Agendas do avô Serafim

O meu avô paterno era agricultor. Conheci-o já estava na cadeira de rodas, sempre debaixo de muitos cobertores, paralisado depois de uma trombose. Quase impossibilitado de falar, para além de algumas histórias contadas pela família, só me deixou na memória a sua figura, a de um velhote simpático, de bigode e chapéu, e sem parte de um dedo de uma mão.

Vi as suas agendas pela primeira vez há coisa de uns 15 anos. Na altura não lhes prestei especial atenção, apesar de ter sido eu a arranjar a caixa onde ficaram guardadas, em casa dos meus pais. Depois de começar este blog, versão actual dos cadernos de apontamentos de antigamente, achei que fazia todo o sentido lê-las. Com a excepção de alguns em falta, estão registados os anos de 1937 até 1972, curiosamente o ano em que nasci.

Os tempos eram outros, mais difíceis, e as primeiras que li deixam transparecer uma preocupação essencial, diária: a relação das despesas e dos ganhos. É, no entanto, a partir das anotações das tarefas ou acontecimentos mais importantes de cada dia, que começo a reconstituir a sua vida, da família e da terra. Aos poucos surgem os ritmos sazonais dos trabalhos agrícolas, da cozedura do pão, das missas semanais e das romarias anuais, das obras dos poços e muros, da compra e venda de gado, das feiras.

Dele sinto que herdei alguns traços, como o gosto e a habilidade para fazer muitas coisas diferentes, a lágrima fácil de comoção com a música, e, mais recentemente, o facto de também ser agricultor, nem que seja só quando posso e para consumo próprio. Vai ser portanto com muito prazer que me vou dedicar a ler estas agendas nos próximos tempos. Tanto mais que, como nem sempre consigo perceber o contexto de todas as anotações, vai ser o ensejo de ouvir mais algumas histórias ao meu pai e às minhas tias.

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6 responses to “Agendas do avô Serafim”

  1. sara aires says :

    Que bonito e original o teu blog! Gostei muito e vou voltar. Também o meu avô era agricultor. Nentanto, eu tive a sorte de crescer com ele. Passei a minha infância entre fazenda, casa da avó e só mais tarde (aos5 anos) o infantário, mas sempre em contacto com a terra. Adoro o campo, as flores, o cultivo. Obrigada por tanto me recordares.
    Até breve.
    sara

  2. milones says :

    Acabei de conhecer o teu blog por intermédio de uma amiga e devo dizer que estou muito feliz por sentir esta sensação de que ainda existem coisas bonitas na net (é que eu sou prof. e ultimamente Internet é sinónimo de notícias da desgraça e da ministra… enfim)
    Também tenho uma pequena, pequenina horta onde acabei de construir uma abriga/cabana/barraca e espero dentro em breve poder partilha assim coisas simples e bonitas.
    Parabéns

    milones

  3. Amanda says :

    Parece minha agendas.Vcs andaram me expiando?

  4. c melhor says :

    Ola gostei muito da historia das agendas antigas ,mas queria saber se és do avenal -cadaval ? o meu pai é de lá e somos da familia dos Melhor
    obrigado

    • Luciano says :

      @c melhor, lamento mas não, o Avenal a que me refiro é de Ul, Oliveira de Azeméis.

  5. Tecelão says :

    É mesmo muito estranho!… Nunca imaginei que te ia rever aqui e agora. Não tem graça. O teu avô e as suas agendas ligam bem com o saber e o sorriso da natureza. O que penso vir a perceber é por que te acho a ti em volta das agendas do teu avô. A tremocilha não julga… fertiliza. Até sempre… Viva o sol das suas flores!…

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